O coração viajante de Duda Nervis, primeira caminhoneira mulher habilitada em Chapecó

Da estrada para as telonas, conheça a história de Duda Nervis

Em princípio, Duda não recebeu apoio de ninguém da família, mas aos poucos mostrou a todos que era capaz (Arquivo pessoal)
Em princípio, Duda não recebeu apoio de ninguém da família, mas aos poucos mostrou a todos que era capaz (Arquivo pessoal)

A sonhadora Dilce Nervis, 42 anos, cresceu em um ambiente em que a profissão de caminhoneiro era “atividade para homem”. O sonho alimentado desde pequena concretizou-se aos 29 anos ao assistir a uma reportagem sobre Dona Nayra, a caminhoneira mais antiga do mundo. “Foi por meio da reportagem que eu descobri que mulher podia ser caminhoneira e decidi correr atrás do meu sonho”, afirma.

A primeira de Chapecó (SC)

“É como aquele ditado: o bom gato cai sempre de pé, né? Nunca deitado. A gente se vira em qualquer área.” Duda, como Dilce é conhecida pelos mais próximos teve um salão de beleza e um restaurante antes de seguir a carreira estradeira. Após o fim de um relacionamento, a oportunidade de se tornar caminhoneira e agregar um salário melhor para seu sustento e a criação do filho não a fizeram pensar duas vezes antes de largar o antigo estabelecimento e assumir o volante.

Em 2006, no processo de tirar a habilitação, surgiu a surpresa. “Quando fiz os exames médico e psicotécnico na delegacia de Chapecó, os profissionais deram uma olhada nos arquivos e descobriram que não constava nenhuma mulher habilitada na cidade. Eu fiquei assustada, mas me deu mais um solavanco para ter certeza de que ser caminhoneira era a carreira que eu queria seguir a partir dali”, afirma.

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Carreira

Em princípio, Duda não recebeu apoio de ninguém da família, mas aos poucos mostrou a todos que era capaz. “Todas as alterações de carteira que eu fiz foram de primeira. Nunca tive dificuldade nenhuma. Eu precisava provar para mim e não para eles a minha capacidade. Com o tempo eles foram compreendendo e me apoiando.”

O começo não foi fácil. Duda não conhecia ninguém na área, não contava com indicações de parentes e por ser mulher, muitas empresas não davam a ela um voto de confiança. A primeira oportunidade apareceu em uma transportadora onde ela carregava e descarregava um caminhão de pequeno porte. Nessa empresa, a caminhoneira ficou cerca de um ano e meio até fazer a transição para a carreta, veículo que dirige há 11 anos. Daí em diante, Duda trabalhou com caçamba grande puxando farinha e resíduos industriais, e com câmara fria, onde permanece ainda hoje.

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Representante da mulherada

No início de nossa conversa, Nervis deixa claro seu incentivo para que outras mulheres entrem na área. “Enquanto eu puder usar o meu trabalho para levar outras mulheres a começarem na profissão, eu irei divulgar”, afirma. E Duda não deixa barato quando questionada sobre a comparação entre homens e mulheres no segmento.

“Até hoje, onde eu trabalhei, nós ganhávamos o mesmo que os meninos, até porque eu nunca deixei a desejar e nem fiz uma carga a menos por ser mulher. Não teve cólica, dor de cabeça ou TPM que me parasse. Eu nunca aceitaria ganhar menos por ser mulher”.

O machismo de cada dia

Duda sentiu o machismo na pele da pior maneira. Em uma das primeiras empresas em que trabalhou, um homem passou a mão em seus seios enquanto a auxiliava em um descarregamento. À época, por ser um de seus primeiros trabalhos e devido ao medo de ser demitida, Nervis optou pelo silêncio, mas tal atitude mexeu muito com seu psicológico.

“Atualmente eu não pararia para pensar: eu ligaria na hora para o meu patrão e procuraria a gerência da empresa, porque eles devem saber o tipo de funcionário que tem lá dentro. Hoje, qualquer mulher que vier falar comigo eu apoio que denuncie. Se os seus patrões não te defenderem numa situação dessas, eles não te merecem.”

Bastidores do documentário "Coração Viajante" (Foto: arquivo pessoal)
Bastidores do documentário “Coração Viajante”

Nas telinhas e no telão

Quem diria que Duda iria aparecer no Big Brother Brasil, não é mesmo? A ideia veio de uma amiga, que via em Nervis potencial para concorrer a uma vaga ao programa que dava ao vencedor um prêmio em dinheiro. A caminhoneira foi chamada para uma primeira entrevista e foi selecionada, mas uma ação judicial sobre um acidente com uma moto, em que Duda era inocente, a impediu de entrar na atração. Hoje, Nervis descarta qualquer possibilidade de participar de algo parecido.

A surpresa veio em 2016, quando os alunos de jornalismo da Unochapecó (Universidade Comunitária da Região de Chapecó), Daniel Paulus e Vanessa Presotto foram até Duda para convidá-la a participar de um documentário. Os jovens a conheciam por meio de uma reportagem de uma emissora local sobre o dia da mulher, em que Nervis era a personagem principal. Duda acabou aceitando o convite e embarcou na empreitada.

O projeto

“Foram oito meses de produção, 1400 km rodados, 600 exclusivamente de caminhão e o restante de carro para as entrevistas e também para a viagem em que gravamos, uma vez que não fomos autorizados a gravar de dentro do caminhão fisicamente. Houve todo um trabalho de adaptação para isso também”, afirma Daniel Paulus. Parte do documentário saiu graças a um projeto via Catarse, site em que pessoas doam dinheiro para projetos em desenvolvimento em diversas áreas.

Os jornalistas Daniel Paulus e Vanessa Presotto acompanhados de Duda na exibição do documentário em um cinema (Foto: arquivo pessoal)
Os jornalistas Daniel Paulus e Vanessa Presotto acompanhados de Duda na exibição do documentário em um cinema

Do profissional para o pessoal

A relação entre alunos e entrevistada acabou partindo para o campo pessoal. Nos tornamos amigos da Duda. Isso fez toda a diferença para extrair dela o máximo de sua história. Ela é totalmente independente e realizada na profissão, por isso, fazia questão de ser nossa personagem. Apesar do jeito sério, ela tem um coração enorme e por isso o nome do documentário: “Coração Viajante”. Ela faz tudo com muito amor, é uma amante da vida e da profissão”, finaliza Paulus.

“Eu achei a experiência um tanto emocionante e descontraída, uma mistura deliciosa. É uma coisa que eu fiz e vai ficar guardado para meu filho e meus netos, que vão encontrar em algum arquivo da faculdade daqui a 20, 50 anos. Acho lindo participar da história, porque morrer faz parte, mas fazer parte da história só fica para alguns”, destaca o emocionado “Coração Viajante”.